O 5-sílabas

É possível descrever a aparência dele com uma palavra: impecável.

Ele tem por volta de um metro e setenta, talvez até um pouco menos, e é o mais baixo de nós. Uma boa olhada nele é o suficiente para entender por que eu escolhi essa palavra.

Tudo é absolutamente impecável.

Até a sobrancelha dele é sempre tão reta e arrumada que eu imagino que ele deva fazer no salão. A barba cheia, mas sem nenhum pelo para fora, como se tivesse sido pintada com uma caneta.

A boca fina se perde na barba, mas eu ainda consigo ver um sorriso de saudade, afinal, não nos vemos há um mês.

Os olhos castanhos não param por trás dos óculos. A armação preta, quadrada, dá a aparência mais séria e sóbria possível.

E, ao contrário dos meus óculos, as lentes estão tão limpas que eu tenho uma pequena vontade de colocar um dedo para ver se estão ali mesmo.

Ele me olha de cima a baixo, olha o apartamento, ao redor, o corredor. Mesmo já tendo vindo aqui várias vezes. Ele é uma pessoa muito observadora.

Está vestindo uma calça social preta, um par de sapatos tão bem lustrados que dá para ver o meu próprio reflexo neles e uma camisa branca tão limpa e sem amarrotado que ele deve ter passado assim que saiu do meu elevador, além, é claro, do terno. Não pode faltar. Pelo menos os botões estão abertos.

O terno também é preto, para combinar com a calça, e parece ser feito sobre medida. Eu acho. Não sei diferenciar um comprado em uma loja de um feito sobre medida. Imagino que seja especial, porque cai muito bem. E, convenhamos, ele não é o exemplo de corpo.

E isso talvez seja o mais casual que ele já tenha se vestido. Ele nem está usando gravata! Que desleixado!

A única falha real na aparência dele é o cabelo. Ou melhor. A falta dele. Apesar de eu achar que está cedo para alguém do nosso grupo ficar careca, a linha capilar dele discorda, visto que começa uns quatro dedos acima de onde uma testa normalmente termina.

Bom, não se pode vencer todas. Pelo menos, ele encara a calvície com dignidade. Não esconde, mas também não tem coragem de raspar a cabeça completamente.

Sem muito tempo para malhar, ele também é um pouco acima do peso. Não tem queixo duplo ou nada assim, mas a cara redonda não engana e a barriga dele também é evidente, não importa o quanto ele se esforce na postura para tentar diminuir o impacto visual dela. Sério, se eu ficasse com a coluna tão esticada quanto ele, acho que ia quebrar ao meio.

Nós o chamamos de O Viciado em Trabalho. Isso acontece porque ele é, bom, viciado em trabalho.

Não é um apelido muito criativo.

O cara adora trabalhar. Mas adora mesmo. Ele é realmente viciado. Do tipo que sem trabalho fica maluco. Sobe pelas paredes. Tem abstinência. Você conhece ou já ouviu falar de alguém que odeia férias? Pois é. Ele é essa pessoa.
Parando para pensar, acho que ele não tira um descanso desde que a gente se conhece. Se ele fica doente, fica mais preocupado em não trabalhar do que com o que pode ter. É bizarro.

Mas, ao mesmo tempo, é muito bom para ele, visto que é um homem de muito sucesso.

É formado em Marketing – “a profissão do futuro”, como a gente o zoava tanto na época da faculdade, e hoje em dia, toma aí. Eu, como jornalista, definitivamente não estou rindo agora –, Publicidade e Administração e trabalha em uma das maiores agências do país. Vive viajando pelo mundo para reuniões com diversos clientes e mora na capital financeira.

Mas, apesar disso tudo, ainda encontra tempo para vir para cá uma vez por mês. E é o primeiro a chegar.

Impressionante.

Ou ele é muito foda, ou os outros são realmente escrotos. Sinceramente, não sei qual é o correto. Dentre nós, ele é o que tem mais apelidos. Presunto, Almôndega – pela sua aparência física na adolescência, quando ele era mais gordinho – e talvez o meu favorito, 5-sílabas.

Ele é aquele tipo de cara que gosta de falar e falar e falar e falar e falar de uma maneira bonita e rebuscada, com palavras grandes – daí o 5-sílabas – até que você queira se matar ou enfiar a porrada nele só para ele calar a boca.

Blog at WordPress.com.

Up ↑

%d bloggers like this: