O Aposentado

Abro a porta e vejo o Aposentado.

Ele não é de fato aposentado, afinal, ele tem praticamente a minha idade – 30 e poucos anos –, mas ele tem uma máxima, um lema, um sonho que ele conta desde que eu o conheci.

Ao ser perguntado: “Qual é o seu maior sonho?”, ele sempre respondia a mesma coisa: “Me aposentar”.

Curioso.

Pois é. É uma resposta curiosa para se ouvir de alguém novo, mas a lógica por trás dela é sólida como um carvalho. Me perdoe o trocadilho.

Não.

Eu me lembro da primeira vez que nós conversamos sobre isso.

– Se aposentar, cara? Como assim? – eu pergunto rindo, porque com certeza é a resposta mais estranha e diferente que eu já ouvi.

Eu gosto muito dessa pergunta. É tão simples e eu faço para todo mundo que eu conheço.

– Me explica essa porra, pelo amor de Deus.

– É muito simples, cara. O que é um aposentado? É uma pessoa que já trabalhou tanto ao ponto de receber dinheiro sem trabalhar mais. Eu quero chegar na fase de receber dinheiro sem passar pela fase de trabalhar.

Eu devo admitir que choro de rir com a resposta. Acho que por ser, ao mesmo tempo, completamente maluca e idiota, mas fazer tanto sentido, que na verdade faz com que eu queria isso também.

Quem não ia querer?

O 5-sílabas.

De fato. Isso certamente ia ser a versão dele do inferno. É engraçado como pessoas são diferentes.

– E, porra, você prefere se aposentar do que ganhar milhões na loteria?

– Lógico que sim.

– Cara, você está se esforçando para não fazer sentido agora. Me explica essa porra.

– Dinheiro assim acaba, cara.

– MILHÕES?!?!

– Sim, milhões. Em primeiro lugar, eu ia ter que sumir, porque todo mundo ia querer minha grana. Se eu recebo uma aposentadoria, por melhor que seja, ninguém vai me encher o saco; e recebendo uma grana fixa por mês, eu não vou poder fazer loucuras que eu faria com os milhões. Vou ter que ter um estilo de vida compatível com a quantidade de grana que eu ganhar. Mas é muito possível ter uma vida ótima com uma aposentadoria boa o suficiente.

Porra, não é que faz sentido.

Estou boquiaberto.

Novamente, quero rir dele e tirar sarro desse plano ridículo, mas a lógica é impenetrável. Quer dizer, tirando a falha óbvia. Decido atacá-la logo antes de seguir adiante. –

Ok, faz sentido, mas me explica só uma coisa, como diabos você pretende se aposentar com vinte anos de idade?

Ele ri.

– Não sei, não cheguei a uma conclusão sobre essa parte do plano ainda.

Muito bem.

Grande plano, Napoleão.

E agora, alguns anos depois? Em que situação se encontra o plano mais ridículo e inteligente que eu já vi na vida?

Bom, lamento dizer que ele não está aposentado.

Que pena.

Pois é.

Mas digamos que ele está bem satisfeito com o rumo que a vida tomou. No final de contas, ele se formou em Direito e passou em um concurso público muito bom. Garantia de salário e estabilidade praticamente por toda a vida e, convenhamos, uma carga de trabalho não tão puxada assim, ainda mais no país que a gente vive. Digamos que ele é um “semi-aposentado”.

Podemos então concordar que esse plano maluco deu tão certo quanto poderia ter dado. Que bom. Bom pra ele. Isso sem contar os processos que ele manda para cima de qualquer coisa. O cara é capaz de processar a mãe.

Sério.

Mentira. Mãe é mãe. Tudo tem limites.

Mas o pai, ele processa.

Ele chega parecendo o “anti-5-sílabas” – e de certa forma ele até é.

É bem alto – para os nossos padrões –, deve ter mais de 1,90 e é o maior membro do nosso grupo.

Pelo menos verticalmente.

No horizontal, o maior é o 5-sílabas.

Ele é o oposto do 5-sílabas não somente na aparência física. As roupas não podiam ser mais relaxadas. Parece que ele está indo para a praia. Ele calça um chinelo branco que é tão velho que parece na verdade ser cinza; a bermuda é xadrez, chega um pouco abaixo do joelho e está um pouco surrada, mas nada tão alarmante quanto chinelo branco/cinza. A camiseta é a cereja no bolo. Sem manga, com uma propaganda de um político na estampa. Está tão surrada quanto o chinelo. Senão mais. A única coisa que presta são os óculos ray-ban no estilo aviador, que provavelmente custaram mais do que o resto da roupa toda junta.

Os óculos cobrem os olhos meio arregalados que ele sempre tem, como se sempre estivesse assustado com quão mal ele se veste. O topo da cabeça revela uma leve calvície que faz com que ele pareça estar usando um quipá. O nariz é longo e fino e a boca está sempre com um sorriso. Essa é a marca do Aposentado. Está sempre rindo. Se eu pudesse descrevê-lo com uma frase seria: “se ele vir uma pessoa tropeçar na rua, ele vai cair no chão junto de tanto rir, vai ajudar o outro a levantar e depois se oferecer para processar o responsável. Seja quem for.”

Continuando o jogo de uma palavra para descrever a pessoa do Aposentado, é bem fácil: relaxado. Ele é a encarnação de uma pessoa relaxada, mas não no mau sentido. É um cara que está satisfeito com a vida e por isso preza o conforto acima de qualquer coisa.

Eu respeito bastante isso.

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